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Quando o passatempo vira trabalho


Desde criança, o desenhista americano Keno Don Rosa costumava desenhar histórias em quadrinhos em seus blocos de anotações. Criado na companhia de uma irmã aficionada por gibis antigos, ele passava horas criando, por diversão, tirinhas e histórias para jornais da escola. Formou-se em Engenharia Civil e passou a administrar a construtora da família. Anos depois, inventou um super-herói a pedido de um jornal pequeno. Com o sucesso imediato, Don Rosa deu início à nova carreira: hoje é considerado um dos desenhistas mais geniais da Disney. O passado de cálculos e obras está enterrado.

O desenhista é apenas um exemplo famoso, mas vários profissionais anônimos conseguem fazer o que, em tempos de crise no mercado formal de trabalho, parece impossível: transformar o lazer em ganha-pão. Muitas atividades paralelas começam como prazer, relaxamento ou complemento da renda, mesmo em uma época de salários em desvalorização e falta de oportunidades. Mas o desempenho e a dedicação vão definindo novos rumos profissionais e, em alguns casos, o novo projeto acaba virando o foco no campo profissional.

Vontade - O sinal mais evidente de que o passatempo ocupa lugar especial na vida de alguém e pode até se transformar em alternativa profissional é a dedicação. Se, cada vez mais, a atividade prazerosa ganha espaço e o trabalho perde importância, vale a pena avaliar se um novo projeto, baseado naquele prazer, é viável.

Para que essa atividade se transforme em algo rentável, é preciso que haja um casamento entre duas forças: oportunidade e vontade. Se não houver uma brecha no mercado, estímulo externo e ações de incentivo, ela nunca se tornará uma opção profissional. Sem vontade, as oportunidades passam despercebidas.

Quando uma atividade lúdica e prazerosa se transforma em profissão, ela deixa filosoficamente, de ser um passatempo. Com caráter de lazer e relaxamento, serve como válvula de escape para o cansaço imposto pela rotina. Quando alçado ao posto de trabalho, passa a vir acompanhado de prazos, pressões e maior exigência por disciplina e normas. Ainda assim, pode agregar mais felicidade e recompensas do que a função anterior, e ainda atenuar as dificuldades naturais do mercado.

 

Dois empregos, por escolha

Quando criança, o cearense Orinaldo de Oliveira, hoje com 39 anos, tinha como ambição profissional seguir a tradição familiar e se tornar mecânico. Apaixonado por carros, aos 11 anos, já ajudava a apertar parafusos na oficina de um tio. Aos 20 anos de idade, depois de desistir de um curso de Matemática, mudou-se para Brasília e voltou para a profissão herdada no sangue: a mecânica.

Além de cuidar do conserto, Oliveira passou a comprar carros antigos, fazer pequenos reparos e a revendê-los por um preço mais vantajoso. Com o lucro, comprava um carro melhor, arrumava e revendia. Casou-se e conseguiu um emprego como motorista na agência de comunicação do cunhado. Passou pelos cargos de auxiliar de escritório e operador de equipamentos de áudio, até chegar ao posto atual, de gerente administrativo. Com a melhora no salário, comprou o segundo carro, exclusivamente para vender.

Rapidamente, o carro de negociação deu lugar a dois, a quatro, a seis. Com o tino comercial em franco desenvolvimento, ele não tinha onde guardar a frota. “Cheguei a deixar os carros debaixo do bloco do meu cunhado”, conta. Apesar da prosperidade do negócio paralelo, ele continuava como gerente da empresa, e por diversão, ajudava os colegas de trabalho a encontrar o melhor modelo de automóvel, pesquisar preços e até a encontrar mecânicos de confiança.

Empresa – A compra do oitavo carro coincidiu com a reforma de uma casa em Sobradinho. Ainda não era o ideal, mas o problema de onde deixar a frota começava a se resolver. Há três anos, Oliveira solucionou a questão de vez. Montou uma agência de automóveis em Sobradinho, com equipe de quatro funcionários, e mantém constantemente, no pátio, entre 25 e 30 carros.

Hoje, os automóveis dão mais lucro do que o salário de gerente da agência, mas ele nem pensa em deixar o cargo, em nome da estabilidade. “Ser funcionário é mais fácil do que ser patrão”, revela. Formado em Administração de Empresas, ele não abre mão de mergulhar, de vez em quando, no passado de mecânico. Se for preciso, ajuda até a lavar os carros e confessa que o negócio o deixa tão empolgado que, às vezes, é difícil manter o horário no outro emprego.

 

Entre o banco e as pranchetas

Quando passou em um concurso para trabalhar como bancária, há 25 anos, Leila de Barros abriu mão da antiga paixão: desenhar, montar e construir. “Era vocação de menina, meu sonho dourado. Mas a vida me levou para outros caminhos”, lembra. Hábil com números e dona de invejável memória espacial, ela se submeteu a um teste vocacional na adolescência. As três primeiras opções foram arquitetura, decoração e moda.

Apesar disso, passou muito tempo para que pudesse colocar as habilidades em prática. Como só havia uma faculdade de Arquitetura em Brasília e a oferta de curso era diurna, foi impossível conciliar os estudos com a rotina no banco. Foram anos de atuação como “palpiteira” nas obras e decorações dos amigos. A história de Leila, 43 anos, começou a mudar quando surgiram opções de cursos noturnos. Após se matricular em um deles, ela encontrou o elemento que faltava para começar a desenvolver o novo lado profissional: uma sócia.

União de ideais– No banco, conheceu uma outra estudante da área e a afinidade foi imediata. Designer e modista, a amiga começou a pedir a opinião de Leila sobre alguns trabalhos. Depois, vieram os convites para projetos, até que as duas decidiram oficializar a parceria e ainda incluíram uma terceira sócia no projeto.

Há um ano, elas criaram uma empresa de arquitetura, decoração e design. E já conseguiram espaço em grandes eventos da cidade, como a 25ª Feira do Livro e o Bsb Mix, exposição de venda de produtos alternativos, realizada mensalmente. O escritório do trio deve ficar pronto até o final de 2006 e a idéia é criar uma espécie de cooperativa de profissionais da área para ganhar em criatividade e força de trabalho.

Perto da aposentadoria como bancária, ela nem pensa em abandonar o mercado de trabalho. “Quero sair de uma cadeira e sentar em outra”, brinca, ao falar da nova carreira. A bancária também não admite a idéia de que o hobby que passa a ser rentável vira trabalho e obrigação. “De jeito nenhum. É como se eu não estivesse trabalhando”, afirma.

 

E a chita deu pano pra manga...

Quando começou a vida profissional, a professora de Artes Mia Mendes, 49 anos, jamais imaginou que poderia levar a sério a paixão por panos e pela cultura popular brasileira. Depois de ser bancária, digitadora de biblioteca e cursar Sociologia e Pedagogia, ela encontrou nos métodos pedagógicos de Paulo Freire o incentivo para começar a carreira de educadora.

A casa da família vivia cheia de artistas e o envolvimento com música, literatura e manifestações artísticas era estimulado pelos pais de Mia. Desde jovem, ela tinha fascínio por tecidos e vivia às voltas com serigrafia, produção de bolsas de barbante, recortes e colagens.

Da passagem por Recife, onde estudou Sociologia, herdou o gosto pelo colorido rústico da arte popular. Ajudava a confeccionar roupas e fantasias feitas com chita, tecido de algodão estampado em cores fortes, para grupos de mamulengos, teatro e folclore em geral.

Baratos e coloridos, os cortes de chita eram desvalorizados porque, apesar de serem feitos com puro algodão, possuem trama muito aberta e desbotam facilmente. Apesar disso, traduzem a simplicidade das manifestações culturais do nordeste brasileiro. Em suas andanças pelo país, a professora sempre comprava os cortes que encontrava e, mesmo com dificuldade cada vez maior para encontrar o tecido, criou um acervo considerável.

Na moda– O material andou desvalorizado e esquecido por um tempo, até que, no ano passado, um grupo de aristas e personalidades do mundo da moda organizou a exposição “Que chita bacana!” , em São Paulo. Ela resolveu então tirar as peças do armário e aproveitar a ressurreição da chita.

Decorou a festa de uma amiga usando cortes do tecido e o sucesso foi tão grande que os amigos logo a recomendaram para outros trabalhos. Depois disso, já fez estandartes de Carnaval e decorações populares em shoppings. Decidiu investir na paixão por panos e criar colchas de chita.

São colchas porque seguem o tamanho de camas de casal ou solteiro, mas podem ser usadas como toalhas de mesa, coberturas de sofá e o que mais a criatividade permitir. Como não gosta de costurar, Mia convidou uma ex-empregada da família para fazer o trabalho. A professora recorta os tecidos, monta a colcha e a sócia, Zita, dedica um dia da semana às costuras.

Uma amiga de Botucatu veio visitá-la, viu o trabalho e se entusiasmou. Levou algumas colchas para serem vendidas em uma loja da cidade e já deu a notícia de que apenas uma cliente comprou quatro de uma vez. Mia também conseguiu levar peças para serem vendidas em bazares da cidade, mas ainda não possui estrutura suficiente para uma produção em larga escala. Enquanto não encontra parceiros que ajudem a costurar e a organizar o projeto, ela aproveita para estocar produção e ter opções de mostruário. “Eu queria poder fazer só isso. Ainda não dá, mas um dia eu sei que vou conseguir”, sonha.