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27/02/2010 - CORREIO BRAZILIENSE - DF

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Tradutora é processada por editora ao criar blog para denunciar casos de plágio no mercado editorial brasileiro que incluem obras de Dostoiévski, Darwin, Melville e Jane Austen. Mesmo sob suspeição, livros continuam à venda

» NAHIMA MACIEL Em junho do ano passado, a tradutora Denise Bottman constatou, perplexa, o plágio de traduções praticado sem pudores por algumas editoras brasileiras. Uma denúncia em jornal paulistano citava pelo menos duas empresas - Martin Claret e Nova Cultural - como verdadeiras fábricas de desova de traduções adulteradas nas livrarias do país. Desde então, Denise empreendeu uma extensa pesquisa e já chegou a 14 editoras que praticam plágio e atuam no mercado editorial sem grandes impedimentos.

A pesquisa gerou o blog www.naogostodeplagio.

blogspot.com, no qual Denise lista títulos com traduções plagiadas e as editoras responsáveis por sua publicação. O site incomodou tanto que a Landmark, uma das citadas no blog, processou a pesquisadora e entrou com pedido na 4ª Vara Cível de São Paulo para tirar o blog do ar. O pedido, no entanto, não foi atendido pelo juiz responsável pelo caso. "A Editora Landmark propôs a ação competente em face da blogueira Denise Bottman por entender que as denúncias por ela apresentada encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto à acusação de plágio.

Acrescenta-se que a existência ou não de plágio, por se tratar de crime, somente pode ser reconhecido na esfera judicial", diz Alberto J. Marchi Macedo, advogado da Landmark. No blog, a tradutora apresenta provas de plágio na tradução de Persuasão (Jane Austen) e O morro dos ventos uivantes (Emily Brontë), publicadas pela Landmark em 2007.

A pesquisa de Denise é motivada por uma prática realizada há anos sorrateiramente no mercado editorial brasileiro e raramente questionada ou impedida.

"Isso é um saque ao patrimônio literário.

Bem ou mal, o Brasil é um país que até hoje depende muito de tradução na área do conhecimento e da literatura. A grande abertura do país para o mundo foi no começo do século 20, quando Monteiro Lobato e Francisco Alves começaram a traduzir as coisas.

Quem traduzia na época era Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira", conta Denise. E são essas traduções mais antigas as preferidas dos plágios.

O método é sempre o mesmo. Mantém-se a estrutura da tradução e muda-se uma ou outra palavra antes que o texto seja publicado sob pseudônimo ou assinado por um tradutor desconhecido. No ano passado, o plágio praticado pela editora Martin Claret virou caso policial depois que o Ministério Público Estadual de São Paulo pediu para a polícia instaurar inquérito para investigar o crime. A Lei nº 9.610 confere direitos autorais ao tradutor e, segundo o Código Penal, o crime prevê de três meses a quatro anos de prisão. O inquérito da Martin Claret foi arquivado e os livros continuam nas livrarias.

Entre as obras plagiadas estão uma tradução de O lobo e o mar (Jack London) feita por Monteiro Lobato em 1934 e assinada por um certo Pietro Nassetti e uma versão de Orgulho e preconceito (Jane Austen), vertida para o português por Maria Francisca Ferreira de Lima e atribuída pela Martin Claret a Jean Melville. Advogada da editora e única a falar sobre o caso, Maria Luiza Egea diz que a empresa está trabalhando em mudanças no catálogo.

"A editora contratou novos tradutores para alguns títulos dos quais havia publicado, para atender a interesses comerciais", garante.

A Nova Cultural é outra editora que, segundo Denise, tem o catálogo recheado de plágios. Na versão da editora, a tradução feita por José Maria Machado para A mulher de trinta anos (Honoré de Balzac) aparece como se fosse trabalho de Enrico Corvisieri.

A Ediouro também está citada com uma tradução suspeita de A origem das espécies, de Charles Darwin.

Paulo Roberto Pires, editor da empresa, explica que a obra foi licenciada pela Hemus, outra editora citada frequentemente nos cotejos de Denise. "Agimos como todas as editoras: contratamos profissionais para traduzir cada um dos lançamentos. São profissionais de tradução, não editores. Comprar traduções já prontas pode ser um recurso, ao qual se lança mão em se tratando de textos clássicos em domínio público - é disso, principalmente, que trata a Denise. Quando contratamos traduções já prontas, obviamente pagamos aos tradutores", diz Pires.

A Madras também aparece nos cotejos de Denise.

A tradução de Seleções, de Flavius Josephus, seria um plágio de trabalho realizado em 1974 por Vicente Pedroso. Na edição da Madras, o livro apareceu assinado pela tradutora Caroline Kazue Ramos Furukawa, que abriu processo no qual nega ter sido a autora do texto e pede a retirada do seu nome do livro.

"A Madras nunca realizou plágio, nem o permitiu em sua atividade empresarial e editorial. Os livros em questão foram assinados pela tradutora Caroline Kazue Ramos Furukawa, que na época era funcionária da Madras, responsável por todo o processo de tradução da editora, desde a aquisição da obra, contratação de tradutores até a edição final", diz a assessoria de comunicação da editora. "A Madras nunca se utilizou de falsos tradutores, mesmo porque isso iria contra o acordo contratual com as editoras internacionais com as quais mantém negociações." Após o imbróglio, a empresa ordenou a retirada das obras - A origem das espécies, de Charles Darwin, também era de origem suspeita - de todo o mercado livreiro.

Drummond e Bandeira Nefasto para o mercado editorial, o plágio preocupa as editoras que investem em novas traduções realizadas pelos profissionais mais conceituados da área como garantia de qualidade. A CosacNaify divulga o blog Não Gosto de Plágio no site oficial, assim como a L&PM. "Muitos dos tradutores lesados são conhecidos nossos, colaboradores nossos ou profissionais que admiramos", explica o editor Paulo Werneck. Em casos de traduções com grande valor literário, a Cosac negocia os direitos para publicar o texto. Aconteceu com Thérèse Desqueyroux, romance de François Mauriac traduzido por Carlos Drummond de Andrade, e o Macbeth, de Shakespeare, na versão de Manuel Bandeira para o português.

Comprovar o plágio é tarefa fácil do ponto de vista dos tradutores. Cada tradução é única e a marca do autor deve ser notada na maneira como constrói as estruturas das frases. Nos plágios, tais estruturas costumam ser mantidas e pequenas maquiagens como a mudança de uma palavra por um sinônimo são os instrumentos usados para diferenciar. "É um pressuposto básico da teoria da tradução: cada pessoa é um indivíduo diferente e vai traduzir o mesmo texto de forma diferente. Duas traduções jamais vão ser idênticas. Fazer um plágio é fácil por isso. Pode pegar uma tradução já feita e ir copiando, mudando um sinônimo, o lugar do verbo. Isso permite que outra pessoa faça uma tradução sem ter feito nada.

Isso é um plágio", garante Marcos Bagno, professor Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB).

Bóris Schnaiderman, um dos nomes mais importantes na tradução de clássicos russos no Brasil, lembra que já foi vítima de plágio por um texto feito na juventude e mais tarde renegado. Em 1944, Schnaiderman trouxe para o português Os irmãos Karamazov, de Doistoiévski. Anos depois de renegar o trabalho - "Eu era muito moço e acho que não tratei o texto com a devida seriedade" -, a Martin Claret publicou a tradução assinada por um desconhecido. "Reclamei e eles me deram todas as satisfações, me pagaram indenização, pediram desculpas", conta o tradutor.

O blog de Denise Bottman lista o cotejo de 115 títulos plagiados. São livros que a tradutora analisou e comparou com traduções antigas antes de concluir se tratar de cópias. Além da Martin Claret, Nova Cultural, Hemus e Ediouro, há uma lista que inclui a Rideel, Cedic, Best-Seller e outras

http://www.linearclipping.com.br/PDFs/1055832.pdf

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