Mais notícias

Secom UnB

IMIGRAÇÃO - 30/09/2014

Versão para impressão Enviar por e-mail

Até breve, Haiti

Murilo Salviano*


 Tamanho do Texto

Murilo Salviano, formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília, transformou meros números documentados na imprensa sobre a imigração clandestina de haitianos para o país em webdocumentário. A reportagem multimídia Até breve, Haiti foi vencedora da Expocom Centro-oeste na etapa regional e de Produção Multimídia na fase nacional do concurso. Salviano conta como essa ideia saiu do papel:

Quando comecei a buscar um tema para tratar no meu trabalho de conclusão de curso, decidi encontrar um assunto de relevância social. À época, senti ser minha obrigação devolver à sociedade um pouco de todo o investimento feito em mim durante quase cinco anos de estudo em uma universidade pública.

Como o TCC representa um momento de despedida da vida universitária e de entrada na carreira jornalística, eu não me permitiria investir um tempo tão precioso em qualquer projeto. Buscava algo arrojado, que me desafiasse, e que colocasse em xeque o máximo das potencialidades que adquiri no ensino superior.

No início de 2013, em busca de um tema, notei o silêncio em torno da situação de haitianos traficados ao Brasil. Quando a história tomava linhas de um grande jornal, os haitianos se transformavam em meros números; eram pouco ouvidos. Mas quem são esses haitianos? Por que se aglomeram na pequena Brasiléia? Para entender um pouco melhor esse caso, procurei um parlamentar respeitado (e renomado) do Acre que acompanhou de perto esse processo de imigração. Em abril do ano passado, ele me disse: "se quiser contar essa história, corra. O governo federal vai fazer uma força-tarefa na cidade, e não vai sobrar um haitiano por ali". Ele estava enganado. O fluxo ilegal se intensificou em Brasiléia após a força-tarefa.

Com uma câmera, um microfone e um tripé emprestados, parti para o norte do país em busca desses imigrantes. Fui sozinho até a fronteira do Acre com a Bolívia. Ali, entrei em contato com centenas de haitianos que se aglomeravam em um pequeno clube abandonado da cidade. Conheci a dor e o sonho que trouxeram na bagagem.

Segundo a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre, esse movimento de imigração no estado se iniciou em dezembro de 2010. Os haitianos vinham ao Brasil em busca de melhores condições de vida, emprego e ensino superior. Para sair do Haiti, eles contam com o apoio de coiotes – atravessadores que fazem o tráfico de migrantes. Os coiotes pedem em média U$ 3 mil pela viagem, que pode chegar a três meses de duração. O trajeto é repleto de riscos. Eles passam pela República Dominicana, Panamá, Equador e Peru. Muitos haitianos dizem que no percurso são roubados e humilhados pelos traficantes e pela polícia estrangeira. Eles se sujeitam à ilegalidade por não conseguirem o visto brasileiro de forma regular na embaixada do Brasil em Porto Príncipe.

Para contar essa história, o meu orientador Fernando Oliveira Paulino propôs o formato dos webdocumentários, de produção ainda muito incipiente no Brasil. Fiquei com medo de me arriscar em uma linguagem tão nova, mas depois acabei mergulhando nesse desafio. De início, para desenvolver o "webdoc", contei com a ajuda dos amigos franceses Nolwenn Guyon (que depois veio estudar na UnB como aluna estrangeira) e Gurvan Kristanadjaja.

Em um intercâmbio de estudos na França, na IUT de Lannion, tive a oportunidade de estudar o campo dos webdocumentários. Por isso o "Até Breve, Haiti" está disponível em duas línguas: português e francês. A versão francesa foi escrita com um estilo mais literário para se adequar ao jornalismo do país.

Para executar a ideia, convidei o então estudante de jornalismo da UnB Thiago Dutra Vilela. Ele foi o webmaster do projeto e criou, com maestria e muito esforço, a página que temos atualmente.

Considero que o resultado do webdocumentário "Até Breve, Haiti" foi um reflexo do meu percurso universitário. Na UnB, por meio de projetos de extensão como "Comunicação Comunitária", pude desenvolver uma técnica sensível de aproximação com o entrevistado. Pude ir ao encontro do próximo, e experimentar novas formas de jornalismo. Os projetos de extensão foram fundamentais na formação do profissional que sou hoje.

Os prêmios já conquistados pelo webdocumentário nos enchem de felicidade, claro. É um sinal de que estamos trilhando um bom caminho no jornalismo. Porém, o mais importante de todo esse esforço é a transformação social que se desperta a partir de nosso trabalho.

O webdoc "Até Breve, Haiti" é apenas uma pequena contribuição ao debate da imigração no Brasil, e um pequeno passo no desenvolvimento de novas linguagens jornalísticas no país. Mas é um avanço. E o reconhecimento de todo esse esforço por grandes instituições científicas da área da comunicação é o que me motiva a seguir em frente, e o que me dá a certeza de que escolhi a profissão certa. Nasci jornalista.

Leia mais

Até breve, Haiti

 

ATENÇÃO
O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor e expressa sua visão sobre assuntos atuais. Os textos podem ser reproduzidos em qualquer tipo de mídia desde que sejam citados os créditos do autor. Edições ou alterações só podem ser feitas com autorização do autor.

Pesquisar Noticias [ ]

Fale conosco pelo
e-mail secom@unb.br